A inaugurar o Blogue, fica na integra, a Entrevista feita por Judite Lima, da RDP, ao violinista João Pedro Cunha, no programa “Jardim da Música”, em Agosto de 2003.

O programa começava com uma voz off  “As manhãs de Fim de semana, na Antena 2“, seguindo-se um momento musical…

Judite Lima – O nosso convidado de hoje aqui no Jardim da Música é natural do Porto e passou a residir em Lagos, em 1984, fez os seus estudos de violino e formação musical em Portugal com o seu pai, entre 1983 e 1990, diplomando-se pelo Conservatório de Música do Porto. Seguiu então para Londres para estudar com Patrícia Kalmam e posteriormente para Manchester onde, entre 1991 e 95 se graduou com distinção no Royal Colégio de Música do Norte, na classe de Richard Dikens.

Bom dia João Pedro Cunha…
João Pedro – Bom dia!


J L – … é um prazer enorme recebê-lo aqui no Jardim da Música.
J P – Muito obrigado, para mim é também com muito gosto que cá venho…

J L – Apesar de nós ainda não nos termos conhecido, há uma certa ligação porque eu felizmente partilhei o mesmo prof que o seu pai…
J P – … o prof. François Broos.

J L – … que o João Pedro me segredou que também conheceu…
J P – Conheci muito bem… o meu pai falava sempre do prof. François Broos como se fosse pai dele, portanto de certa forma era como se fosse meu avô.

J L – Ternura?! Com ternura e respeito, não é?
J P – Sim, muito respeito e muita ternura. Eu sei que mudou a visão do meu pai, a forma de sentir a música. Para ele foi muito importante, tanto musicalmente como psicologicamente.

Foi excelente para ele. Deu-lhe muita confiança e, sempre que o meu pai vinha das aulas dele, vinha sempre animado. E isso, naturalmente, transmitia-se para mim, que ouvia falar… ainda não tocava violino.

J L – Mas o prof. François Broos era já um mito na sua família, não?
J P – Absolutamente, sem dúvida. Em todos os natais, o meu pai mandava-lhe um presente de Natal, um postalzinho, etc…

J L – … e no dia dos anos, provavelmente.
J P – Sim, exactamente. Nunca se esquecia. Às vezes telefonava-lhe. E eu já tive a oportunidade de ir várias vezes a casa dele…

J L – … aqui bem perto das Amoreiras.
J P – Sim, exactamente. Lembro-me que tinha lá, precisamente perto, um jardim. Eu era criança, mas lembro-me que havia um jardim perto…

J L – … uma casa muito acolhedora…
J P – …muito… com uma fotografia…

J L – … com soalheira…
J P – … com a fotografia do filho. Não era fotografia, uma pintura, salvo erro. Era uma gravura do filho. O tal filho que ele perdeu, quando o filho era jovem ainda. E que, obviamente, marcou toda a sua vida – eu reparei nisso… E de conhecer a sua esposa também que, na altura, lembro-me… ainda cheguei a conhecê-la, ainda vinha à sala. Mas sei que estava de cama.

J L – E ainda se lembra, com certeza, daquelas fotografias dos tempos do prof. François Broos, em Bruxelas, não é?
J P – Sim, ele contava… aliás, o meu pai contava, que ele tocou com… acompanhou Menuhin, quando Menuhin estava a começar a sua carreira, em criança…

J L – Sabe que ele trabalhou com Albert Einstein?
J P – O Menuhin, ou o prof. François Broos?

J L – O prof. François Broos.
J P – Eh, não… não sabia!

J L – O Einstein era também um músico amador…
J P – … amante da música, sim… Einstein.

J L – Já imaginou o que era tocar com aquele…
J P – … aquele génio.

J L – Eu nem sei o que lhe hei-de dizer… (risos) Curiosamente, quando lhe perguntei a sua idade, o João Pedro não me quis dizer…
J P – É verdade, porque… agora aproveito… faço minhas as palavras do compositor prof. Fernando Correia d’ Oliveira, que é um grande amigo meu, também um grande amigo da família. Também foi professor do meu pai, e eu conheci-o através do meu pai… quem eu admiro muito – A minha tese escrita, da parte do mestrado, que terminei este ano, em Inglaterra, foi precisamente sobre o prof. Fernando Correia d’ Oliveira – E ele dizia na sua autobiografia “Música minha”: “Curiosamente nunca liguei muito à idade das pessoas; o que me interessa nelas é intemporal.” Eu, da mesma forma, noto que isso passa-se um pouco comigo, portanto da mesma forma, nesse sentido, ou nessa continuação, também me pareceu desnecessário dizer qual a minha idade.

J L – Mas é um jovem.
J P – Sim, acho que sim.

J L – Até se nota pela voz. Até falávamos curiosamente de certos preconceitos que existem ainda na nossa sociedade de casamentos, às vezes com homens mais velhos e mulheres mais novas, e o mais complicado que talvez seja homens mais novos com mulheres mais velhas.
J P – Hum, hum! Na sequência também do prof. Fernando Correia d’ Oliveira, é verdade.

J L – Exactamente.
J P –  O prof. Fernando Correia d’Oliveira, até nesse aspecto, foi distinto. Aos 21 anos, ele acompanhava solistas – ele era um grande pianista também, e ainda é certamente, pois ainda toca regularmente, em casa, enfim –  mas ele tocava muito bem, e foi convidado a acompanhar os solistas ao vivo que gravavam, nos estúdios da RDP, no Porto.

J L – Na Cândido dos Reis.
J P – Exactamente. Julgo que, na sua auto biografia, ele refere o nome da rua. E conheceu lá essa cantora, Maria Feliciana, por quem ele se apaixonou, e que ela era 25 anos mais velha do que ele.

J L – Apaixonou-se perdidamente.
J P – Completamente. Na sua autobiografia, ele escreve – ele também é um poeta fabuloso – ele escreve poesia muitíssimo bem, e realmente a sua poesia mais pungente, mais apaixonada é, sem dúvida, a que se refere a essa senhora, ao grande amor da sua vida, a Maria Feliciana.

J L – O que mostra que o exterior muitas vezes não interessa, não é?
J P – É, sem dúvida. É fantástico. Eu noto isso. Anteontem dei um concerto, e não quis deixar passar a oportunidade de dedicar uma música, as Czardas de Monti – um extra, que eu às vezes costumo tocar – a uma amiga minha, que tem… eu peço desculpa Sra. D. Maria Emília, vou dizer a sua idade… (risos)… apesar de falar na idade… mas pronto, não vou dizer a sua idade, vou falar que já é octogenária, mas não parece nada.

J L – Mas é uma idade bem bonita…
J P – É lindíssima. Principalmente porque essa Sra. é um exemplo para qualquer pessoa. Ela é uma força, uma vivacidade, presença constante nas festas que eu dou… não pode faltar… Quem dera a muitas pessoas da minha idade, que tivessem a força e a vida que ela tem, principalmente perante tantas adversidades que ela teve. Foram várias durante a sua vida.

J L – Isso não terá a ver um pouco, às vezes, o amor que nós temos à vida?
J P – Sem dúvida. Aliás, eu acho que o amor é que mexe tudo, mexe o mundo. Se me permitisse só aqui, já que falamos do…

J L – …permito. Pode dizer tudo que quiser, João Pedro.
J P – Posso dizer aqui uma coisa?…

J L – Pode.
J P – Eu, hoje à noite… aliás, eu acordei a meio da noite, porque isto é a primeira vez que estou a fazer uma entrevista, e por isso estava assim um bocado… (inspiração profunda)

J L – Pois olhe que não parece.
J P – Sim, mas pelo menos para uma rádio desta dimensão, é. Às vezes, quando tinha 14, 15 anos, os meus colegas da escola, que faziam rádio amador, convidaram-me lá para a FM de Lagos para dar umas entrevistas, porque já sabiam também que eu já tocava um bocadinho de violino, mas pronto, não é a mesma coisa. Mas como eu dizia, eu acordei com uma quadra na cabeça que – o Prof. Fernando Correia d’ Oliveira vai ter de perdoar se eu me enganei um pouco na poesia, mas lembro-me de uma quadra – em que ele dedica precisamente à mulher, antes de a mulher falecer, em 1972, salvo erro. Ele diz uma coisa deste género: “Mulher que tive, fez-me descobrir o que a poucos é dado sentir, aquele amor terno e forte, onde não tem lugar, tempo, nem morte.”

 

(momento musical com Czardas de Monti:Violino e piano, seguido de palmas)

J L – Estas palmas são obviamente para o nosso convidado hoje aqui nos Jardins da Música, o jovem violinista João Pedro Cunha. Ontem tivemos um jovem violoncelista, que é o Filipe Quaresma, que está também em Londres, e hoje temos o João Pedro Cunha. Desta vez é o violino, para não dizerem que só falo de violoncelo e não falo de violino.

O João Pedro contou-me há bocadinho que saiu de casa com 16 anos?!
J P – É verdade, sai de casa com 16 anos.

J L – … e tão novinho ainda… Sentia-se novo?
J P – Sim, sentia-me… mas ao mesmo tempo isso tem-me feito pensar que nós às vezes temos tendência a considerar as pessoas de menos idade, mais novas digamos, vê-las de uma forma imatura ou irres…

J L – Irresponsável.
J P – Irresponsável. Mas isso também se prende às vezes um pouco – sem querer fugir à sua pergunta – às vezes prende-se um pouco com a forma como tratamos as crianças desde pequeninas. Repare por exemplo: se tiver a sua filha com três anos, qualquer pessoa vem ter consigo e pergunta-lhe “Como é que ela se chama?”. Não se dirigem a elas. As crianças apercebem-se disso. Elas apercebem-se que não lhes perguntam o nome a elas. Naturalmente, vão ficar tímidas da próxima vez que lhe perguntarem… há várias… isto é um pequeno pormenor, mas há muitos pormenores que nós… julgo que nós…

J L – Mas tem razão.
J P – …que a nossa educação falha em não nos dirigirmos às crianças como seres completos, considerarmos sempre como incompletos… ah! “é a criancinha”, ou põe a criancinha de lado, ou “manda a calar”… E depois, acaba por a criança nascer com esse… mais tarde reflecte-se nos seus anos de adolescentes. Sentem que têm de se afirmar, porque nunca lhes foi dada a importância.

J L – Sofreram esses sinais do medo… como diz a Ana Zanatti.
J P – Exacto, Ana Zanatti, no seu programa… que tenho de dar os parabéns, 23 horas, … ouvi a primeira vez. Como sabe, tenho estado fora. Só regressei agora há pouco tempo. E gostei imenso da entrevista que fez à Ana Zanatti.

J L – Ela é fabulosa. É uma SENHORA….
J P – Deixe-me que lhe diga: são ambas fabulosas. Tanto a Judite como ela… gostei imenso da vossa entrevista.

J L – Ai meu Deus! (risos).
J P – Foi muito bem conduzida.

J L – Foi muito feminina.
J P – Foi sim, é verdade. Lembro-me desse pormenor… Foi muito feminina, mas…

J L – E então aos 16 anos saiu de casa.
J P – Exacto.

J L – Foi para a Parede.
J P- Fui para a Parede. Fui para lá…

J L – Foi fazer Surf, ou foi estudar violino? (risos)
J P – Fui estudar violino. O professor Tibor Varga tinha vindo cá lançar a sua escola…

J L – …os cursos…
J P – Veio cá nos cursos e foi convidado pelo Ministério da Cultura, para lançar uma escola de arcos. E deixou cá a sua assistente Shirin Lin, com quem eu fui estudar na Parede (risos). Salvo seja, na cidade, claro.

J L – Na localidade.
J P – Foi uma experiência nova para mim. Tive de passar a ser eu a cozinhar, a arrumar a casa, enfim, a lavar os pratos…

J L – Oh João Pedro, sabe porque é que me faz imensa confusão? Porque eu tenho um filho de 16 anos, e não estou nada a vê-lo, eventualmente nesse… se vivesse essa situação, teria de fazer o mesmo que o João Pedro.
J P – Sabe, nós aprendemos muito, depois de sair de casa. É natural. Na altura custou-me, tinha acabado de fazer 16 anos. Custou-me a mim, custou aos meus pais, naturalmente…

J L – Sei que chorou quando o seu pai saiu.
J P – Sim, ele não sabia. Só mais tarde, uns anos depois, quando conversámos, já eu tinha regressado a casa… na altura confessámos que ambos,… que ele foi pela rua a baixo a descer… despediu-se de mim em casa… Assim que ele desceu, foi pela rua  abaixo a chorar e eu fiquei em casa a chorar. Fiquei sozinho… custou-me, sim. Aquela primeira semana… como em tudo na vida, há um período de adaptação. Naquela semana não foi fácil. Mas depois, enfim… na altura também não havia as possibilidades de ir a casa tão regularmente. Passava longos períodos… ía mais, digamos, no Natal, nas férias, e às vezes conseguia ir um fim-de-semana a casa. E é verdade, chorei!

J L – Mas de certa forma, essa rotura, digamos assim, ou pelo menos a presença constante da mãe e do pai fez o João Pedro crescer.
J P – Sim…

J L – Obrigou-o a crescer.
J P – Obrigou, mas de uma forma ao mesmo tempo serena. Não foi um choque. Mantínhamo-nos em contacto, de vez em quando telefonávamos, mas sim, houve muitas experiências novas e que me ajudaram a crescer. Depois quando tive de ir para Inglaterra, mais tarde…

J L – Foi mais fácil.
J P – Uns anitos mais tarde foi-me mais fácil, sem dúvida.

J L – Como é que era o seu dia-a-dia assim na Parede? Quando ia para a cozinha o que é que pensava? O que é que eu vou fazer?!
J P – Para já eu tinha a escola. Estava a fazer o 11º ano,…

J L – Sim…
J P – … na escola, na Parede. Tinha escola como outro aluno qualquer.

J L – Tinha de estudar, tinha de ir às aulas. 
J P – Tinha as aulas, e depois…

J L – Nunca faltou às aulas para dar um mergulhinho na praia?
J P – Não, nunca faltei, por esse motivo, eh!…

J L – Por essa razão! (risos)
J P – Não, nunca fui cábula nas aulas, sempre tive muita facilidade de apreensão.

J L – Foi sempre um aluno responsável?!
J P – Eu não diria assim, digamos que sempre gostei muito. Até ao 8º ano para mim era tudo muito fácil, porque eu tinha uma capacidade de apreensão… acho que me apercebi mais tarde, que tinha essa capacidade. Na altura não me apercebia, era tudo natural. Ouvia os professores, não pegava nos livros. Ia aos testes, tinha… era um aluno destacado. Mais tarde, quando vim para Lagos, coincidiu – porque estive uns anos na Madeira, entre…

J L – Ai que bom.
J P – Foi… foi óptimo…. e quando vim para Lagos… acho que sei, foi aquela idade em que nós precisamos de prestar mais atenção às colegas, e então…

J L – Às raparigas!
J P – Exacto, já não apreendia tanto. Não ouvia tanto os professores, daí que tive de começar a estudar.

J L – Já havia mais motivos de distracção, não é?
J P – Não estava habituado a estudar, porque não sabia, porque nunca tinha precisado. Nessa altura não passei a ter o destaque que tinha. Tinha de estudar  e depois tinha o violino, que me tirava muito tempo… mas sim, fui fazendo a escola normalmente, sem problemas.

J L – Ia às compras?
J P – Sim ia às compras. Eeh, decidia mais ou menos o que ia fazer, às vezes tinha lá um livro de cozinha, outras vezes telefonava para a mãe: ‘Oh mãe, como é que se faz isto?’ E lá a minha mãe me dizia: olha, pões assim e pões assado. Depois, uma pessoa entra numa certa rotina e corre tudo bem.

J L – Eu tenho impressão que a figura do pai e da mãe são muito importantes para si, João Pedro.
J P – Sim, sem dúvida. Os meus pais… eeh, tenho relações diferentes com ambos, porque, e como se percebe, estudei com o meu pai. Portanto tenho uma relação tanto profissional como filial, não é? Mas que é diferente da relação com a minha mãe. A minha mãe não é música, mas…

J L – A mãe é mais miminho.
J P – Sim, mas não só. Dá muitos conselhos também de vida, e é uma mulher que eu admiro muito. Eu amo os dois por igual, e de maneiras diferentes, mas iguais. Não sei se percebe, mas temos relações diferentes, e acho que é óptimo para complemento de um filho, ter assim dois pontos de vista tão diversos. Acho que sou privilegiado nesse sentido.

J L – É uma pessoa muito equilibrada, João Pedro.
J P – Acho que sim.

(Momento musical – Lista de Schindler)

J L – Há pouco não fiz referência mas, quem tocou as Czardas de Monti foi o João Pedro Cunha, num concerto realizado em Tavira, em Fevereiro de 2000, acompanhado por João Almeida. E agora, acabámos de escutar o belíssimo tema do filme A lista de Schindler, música de John Williams, igualmente em Tavira, e também com João Almeida. Isto foram extra programas, estas peças?
J P – Foram. Ambas foram extra programas, porque o público estava muito animado. Acho que para grande parte do público, notava-se que era a primeira vez que tiveram contacto com um violinista. E… eles ficaram… estavam absorvidos. Eu acho que não tive uma reacção tão espontânea, que aliás notou-se no fim das Czardas, foi avassalador – até para mim – foi, no bom sentido, … fiquei surpreendido, acho que… para eles… presumo que para grande parte do público tinha sido um dos seus primeiros concertos que foram, na altura promovidos pela recém iniciada Escola de Música de Tavira.

J L – Porque é que escolheu o tema do filme a Lista de Schindler? Que é tocada no filme por Isaac Perlman, não é?
J P – Exacto, exactamente. Eu escolhi o tema do filme “A lista de Schindler” porque me marcou muito o filme. Saí do filme bastante tocado por aquele filme.

J L – Afectado.
J P – Bastante afectado. E um dia, passado pouco tempo, lá mesmo na minha Universidade, houve uma jovem minha amiga que tocou acompanhada por Orquestra, este tema. E eu gostei muito de ouvir, e disse: “Olha um dia, eu hei de tocar também este tema, quando se proporcionar.” E, nessa altura, proporcionou-se. O meu colega João Almeida também demonstrou interesse, e então procurei as músicas, trouxe-as de Inglaterra (encontrei-as numa loja, salvo erro!), por acaso encontrei-as… aqueles acasos, não é? Nada acontece por acaso. E trouxe comigo, e na primeira oportunidade: “Olha, e se nós acrescentássemos isto como peça extra, se for necessário?”

J L – Exactamente.
J P – E o curioso foi: eu por acaso, por azar apaguei as duas pequenas palavrinhas que o meu colega dizia antes deste extra, em que ele dizia… e referia o interessante é que isto foi no Cine Teatro, portanto também foi num cinema. E tinha esse duplo significado.

J L – Havia essa relação, também. Curiosamente, nesse mesmo ano, uns meses mais tarde, tem contacto com um professor Israelita, que se chama (vamos ver se eu sei dizer o nome) Yossi Zivoni.
J P – Muito bem, exactamente. Para mim…

J L -Vive em Inglaterra?
J P – Exactamente. Yossi Zivoni é um professor e um violinista de primeira craveira. É dos poucos que gravou todas as partitas e sonatas de Bach…

J L – Como o Shlomo Mintz, por exemplo.
J P – Exacto, como o Shlomo Mintz. Como o,  por exemplo, …acho que gravou todas, eu sei que gravou…

J L – … o Heifetz, não?
J P – O Heifetz, julgo que sim, mas as duas mais conhecidas são do…

J L – Shlomo Mintz?
J P – Não, são do… agora esqueci-me do nome dos dois violinistas.

J L – Não há problema.
J P – O Szeryng e… eh, agora escapou-se-me o nome do outro, do outro violinista. Mas em todo o caso, isto para dizer que é um violinista excepcional e que – aqui não sei se deveria dizer isto, mas é verdade – eu gostei imenso de trabalhar com o professor Richard Deakins, durante a minha graduação, mas de facto eu sinto que não era exactamente o professor certo para mim.

J L – Aliás o professor Richard Deakins foi o seu primeiro.
J P – Eu sei, foi o meu primeiro professor, depois de ter trabalhado com Patricia Calnan, que foi realmente a Senhora, uma mulher excepcional, que me levou daqui…  Ela disse-me: “Olha, tens de vir urgentemente para Inglaterra, senão vais ficar um amador para sempre.” Então, ela levou-me com ela e preparou-me para a entrada nas várias Universidades que havia na altura, em Londres e Manchester. Eu tive a felicidade de entrar em três, e acabei por escolher Manchester, em vez de Londres. Tive um feeling que me mandou para lá.

J L – (risos)
J P – E o professor Richard Deakins, foi professor lá, durante o meu curso. Mas isto para dizer, para chegar ao professor Yossi Zivoni. Quando conheci o professor Yossi Zivoni, disse: este é o meu professor. E apaix…

 J L – Ele é Israelita?
J P – É.

J L – Vive em Israel?
J P – Não, vive em Londres. Vive em Londres, mas é portanto, natural de Israel. E é um professor que realmente mudou a minha forma de tocar.

J L – Eu sei que o João Pedro não gosta de falar nisso, mas é um homem para que idade? Só para nós termos uma ideia da escola.
J P – Ele nasceu por volta de ’35.

J L – Fale-nos um pouco da sua escola, ou seja, Royal Colégio de Música do Norte em Manchester. Porque é que escolheu? Porque é um adepto do Manchester United do David Beckham, ou não tem nada a ver com isso?
J P – (Risos) Não, não tinha nada a ver com isso.

 J L – Mas gosta de futebol. Então, é da cidade do Porto!
J P – Sim, eu aprecio futebol, já apreciei mais. Lembro-me quando o Porto foi jogar ao Japão, para jogar para a Taça Intercontinental. Levantei-me às três da manhã, para ver o jogo em directo. Mas…

J L – Hoje já não faria isso.
J P – Hoje já não. (risos) Acho que já não. Acho que nem a minha mulher – a Vera minha esposa – acharia tão boa ideia. Mas…

J L – Mas fale-nos um pouco do Real Colégio de Música do Norte.
J P – Pois, o Real Colégio para mim, que tem… ainda hoje em dia é considerado sem dúvida um dos melhores conservatórios do Reino Unido. Um dos melhores conservatórios de nível superior. Tem uma grande vantagem em relação aos outros, porque é o único nesse aspecto. É que, não só tem o seu papel tradicional de ensinar os alunos, é certo, mas também é um local que recebe imensos concertos, é um local que tem um teatro de ópera para mais de 600 lugares, uma sala de concertos com mais de 400. Tem um local excepcional para receber muitos concertos e muitos artistas de nível mundial. Nós estamos sempre em constante contacto com eles. Às vezes trazemos Master Classes com eles. E isso é muito importante ver a música ali a acontecer.

J L – É uma escola a sério.
J P – Sem dúvida. Esse é o termo que eu referia, uma escola a sério.

J L – Quando é que nós poderemos ter em Portugal, uma escola assim, João Pedro? Gostaria, com certeza, não é?
J P – Seria óptimo, porque há cada vez… mas nós temos boas escolas, que estão a ensinar,… eu ouço, vejo cada vez, dezenas e dezenas…

J L – Escolas profissionais…
J P – Exacto. Dezenas e dezenas de jovens a tocarem muito bem…

J L – O Filipe Quaresma, ainda ontem foi um exemplo disso, não é?
J P – Exacto.

J L – É um rapaz que está na Orquestra Sinfónica da BBC e que vem da Escola Profissional da Covilhã.
J P – Sem dúvida. Hoje está-se a tocar muito melhor em Portugal e já não é preciso, digamos, neste caso, um instrumentista de arco sair para ir aprender lá fora. Mas é evidente que o ambiente é excepcional neste tipo de escolas e digamos que complementa muito a educação de um músico. Não só no aspecto de saber tocar de instrumentista, mas depois na de músico, que é muito importante. O ambiente não se encontra ainda aqui, e não necessariamente, mas cada vez mais se aproxima.

(Momento Musical – Tango, de Zenamon)

J L – Desta vez não foi no Cineteatro de Tavira, mas no Museu de Cinza a 16 de Agosto de 1997, já há 6 anos, com o Guitarrista Ricardo Aleixo, um Tango belíssimo de um senhor que dá pelo nome de J. Zenamon. Nós não sabemos o que é o “J”.
J P – Não, na música vinha só “J”. Eu não sei, também desconheço. Foi o Ricardo que me cedeu a música, que me apresentou à música, e foi com muito gosto que a toquei.

J L – E é muito bonita.
J P – É muito bonita.

J L – E o público também gostou, estava entusiasta. (risos). João Pedro, conte-nos um pouco o que tem feito ao longo destes anos, para além da sua estadia em Manchester.
J P – Para além da minha estadia em Manchester, onde fiz a Pós-graduação e o Mestrado, e também o PP – portanto, Profissional Performance – que é um curso dedicado exclusivamente…

 

J L – É o único Português a realizar tal feito aqui, não é?

J P – Sim, é um curso em que, por exemplo em cerca de 200 instrumentistas, são normalmente cerca de 6 ou 7 apurados – permitem-lhes ir fazer esse curso. E depois nem todos passam. Mas felizmente este ano, as cordas passaram todas. Foi um ano de muito bom nível, felizmente, para todos. Eeh, agora neste momento tenho dois projectos, em termos musicais. Um é com o acordeonista Gonçalo Pescada, que se chama violinoacordeão – violiNOacordeão.

J L – Exacto.
J P – Ele é um jovem realmente…, é um acordeonista 5 estrelas, fantástico, um músico acabado.

J L – Provavelmente um próximo convidado aos microfones dos Jardins da Música.
J P – Eu recomendaria muito. É um jovem que merece todo o apoio… e damo-nos muito bem, somos muito amigos…

J L – E às vezes há um certo preconceito com o com o acordeão.
J P – É. Sem dúvida que, este acordeão de concerto, que ele toca,… ele já ganhou prémios internacionais, e realmente eu recomendava. Acho que ia gostar muito de o entrevistar e de o conhecer.

J L – Sei também que já trabalhou com o maestro Manuel Ivo Cruz, com o Adriano Jordão e que actuou aqui na Antena 2, e na RTP, no canal 1.
J P – Uhm, uhm! Eu toquei com o maestro Manuel Ivo Cruz, numa comemoração oficial do dia Mundial da Música. Tocámos em Barcelos. Foi uma experiência muito bonita – uma igreja completamente cheia. Foi, foi… actuei a solo com a Orquestra, na altura a Orquestra Clássica do Porto.

J L – Já foi há uns anitos.
J P – Já, já foi há uns anitos. E com o Adriano Jordão, tivemos a oportunidade de tocar num Quinteto. Tocámos o Quinteto de Schumann, e tocámos o Quinteto da Truta, de Schubert. Muito interessante.

J L – Ái, é tão bonito!
J P – Foi. É, gostámos. Foi uma experiência muito muito bonita.

J L – E a sua vida tem sido um pouco cá e lá, não é João Pedro Cunha?
J P – É. Tem sido. Por exemplo, com o Gonçalo Pescada, fomos convidados pela Universidade de Glasgow, e tivemos a oportunidade de tocar lá, numa capela belíssima. Só o entrar naquela capela, foi fantástico. Portanto, convidados por essa Universidade, e vamos lá voltar, vai haver lá num Festival, em que também o Manuel Ivo Cruz, o maestro Manuel Ivo Cruz foi convidado para fazer lá uma palestra. Em Abril, salvo erro, vai haver lá um Festival de Música Portuguesa.

J L – Ái que bom!
J P – E o Gonçalo e eu próprio, fomos convidados para actuar lá também, novamente. Eles ficaram muito animados.

J L – É professor no Algarve.
J P – Sim. Fui professor, entre as minhas duas estadias em Inglaterra. Estive tanto na Academia de Música de Lagos, como no Conservatório Regional do Algarve. E agora o meu outro projecto, que trago agora, é tentar lançar o Método Suzuki, no Algarve, que está a ter muito sucesso cá em Lisboa, na Orquestra Metropolitana. Tenho alguns colegas…

J L – Os violininhos ou violinos…
J P – Os violinhos, salvo erro.

J L – Os Violinhos.
J P – Exactamente.

J L – Nunca sei bem, dizer o nome. Com o professor Rui Fernandes.
J P – Exactamente. E vamos…

J L – Acredita piamente nesse curso, o Método Suzuki?
J P – Ainda não sei dizer. Eu fiquei animado. Fiz o curso agora com um professor estrangeiro que esteve lá, americano. E gostei. Gostei bastante. Achei interessante. Agora estou, digamos em fase de estudo, e vou tentar lançar. Sem experimentar não vou poder saber dizer.

J L – Exactamente.
J P – Eu vou tentar também, digamos – o método é bastante flexível –  vou tentar adaptar, de forma a que se dilua no método tradicional. Mas acho que é interessante para fazer chegar o violino ao maior número de pessoas, e para que o maior número de pessoas possa começar a tocar e a interessar-se pelo instrumento. E depois mais tarde, a selecção natural acaba por se fazer.

J L – E mesmo que não sejam instrumentistas, com certeza terão outra maneira de perspectivar a música. Serão ouvintes.
J P – Sem dúvida.

J L – E estarão sentados a ouvir outros.
J P – Muito importante.

J L – E para um artista é tão importante o público…
J P – É.

J L – E é aqui que vou pegar. O João Pedro não gosta de gravar em estúdio.
J P – Não, não gosto.

J L – Mas porquê? Há muito músico que não gosta.
J P – Eu acho que, para mim, só faz sentido gravar algo ao vivo. Tocar ao vivo tem outra emoção…

J L – Outra dimensão.
J P – Sim, outra dimensão, sem dúvida. E, portanto, o meu sonho é, quando me sentir preparado, fazer uma gravação, quando tiver um concerto em que a acústica se coadune e se proporcionar.

J L – Com certeza.
J P – Então nessa altura, gravar.

J L – Antes de entrar num palco, o que é que o João Pedro sente, o que é que pensa? Costuma dar uma espreitadela para ver como é que está a sala?
J P – Não, não costumo. Não é algo que me seja… o que costumo fazer nesse dia, no dia dos concertos, é, por exemplo, tentar procurar passar um dia calmo. O que já estudei, já estudei. Não me agarro muito ao violino nesse dia. Na quarta-feira dei um concerto, lá em Lagos com o meu pai, que, curiosamente, nós chamamos Duo Cunha, e fizemos um programa leve. Vamos repetir, na Segunda-feira, em Tavira.

J L – Amanhã.
J P – Exactamente, amanhã. Vou daqui hoje para ir lá tocar, num Festival em Tavira – sem querer perder o que é que fiz antes do concerto – organizado pela C M de Tavira e pela Escola de Música de Tavira. Começa connosco e termina com a Orquestra do Algarve. É um Festival de uma semana.

J L – Mas fale-nos um pouco desse recital com o seu pai.
J P – Nós chamamos O Violino Romântico, na Música de Salão. E então fizemos…

J L – Kreutzer, com certeza.
J P – (Risos) Não, nós fizemos um programa de Kreisler, exacto fizemos algumas peças de Kreisler.

J L – Kreisler, é isso que eu queria dizer, desculpe.
J P- Não tem importância.

J L – Fritz Kreisler. Estou a pensar na …
J P – Estava a pensar na sona…

J L – …na sonata de Kreutzer que já estamos a ouvir.
J P – Exactamente.

J L – Sonata de Beethoven.
J P – Exactamente.

J L – Com o pianista Johnathan Tape
J P – Tapp. Lê-se Tapp. Também dizia Tape, quando cheguei lá. Ele diz… ele já me  corrigiu… ele diz que é Tapp.

J L – Pronto.
J P – “T” “A”, dois “Ps”. Mas já dizia. Nesse dia por exemplo, do concerto, fui levar a minha sobrinha a consertar a bicicleta. Porque ela estava toda excitada com isso. E assim, foi de maneira que descontrai, e não estive a pensar: ah, o concerto vem aí…

J L – Abstrair.
J P – Sim foi. Foi fazer assim coisas diferentes. É muito importante.

J L – É difícil entrar num palco?
J P – É, como sabe. Também tocou viola.


J L – Nunca toquei assim como o João Pedro.
(Risos)
J P – Foi um concerto muito bonito.

J L – Nunca teria coragem para isso.
J P – Foi no Pátio do Centro Cultural de Lagos. E foi uma noite muito bonita. Tivemos muita sorte com o tempo. Sei que aqui estava a chover, mas lá estava muito bom, à noite. Um ambiente fantástico. As pessoas foram fabulosas. Tinha lá amigos. Para mim, a amizade é muito importante. Tenho amigos que não dispenso, que fazem parte da minha vida. Tinha lá familiares, e foi um ambiente muito bom. E claro, é evidente que, este tipo de música, é fácil de ouvir. E o público gostou muito.

J L- Fale-nos um pouco do local onde gravou esta Sonata de Kreutzer, que estamos a ouvir, o último andamento.
J P – (Risos) Esta Sonata, de Kreutzer, foi gravada…

J L – Isto é numa Capela de cemitério, não é?
J P – É verdade. À partida parece chocar um pouco.

J L – Não é mórbido?!
J P – Não, não é mórbido. O que se passa, temos de primeiro imaginar que tipo de cemitério… é um cemitério com árvores centenárias. Um cemitério grande.

J L – Um cemitério à inglesa.
J P – Exacto. E o que tentaram fazer lá em York foi, ao mesmo tempo, permitindo o respeito devido aos mortos, que estão lá. Ser possível um cemitério desfrutado pelos vivos. Tem espaços verdes, as pessoas, além disso, podem ir lá. Eu sei que parece um bocado estranho para nós, mas podem, por exemplo, passar lá uma tarde, digamos visitar os seu familiares, passarem uma tarde agradável, até levarem o seu picnic. Não necessariamente na zona das campas. Mas aqui, na zona ao pé da Capela, é uma Capela grande e muito bonita, em que também passaram a realizar-se lá concertos. Pronto, é evidente que quando cheguei a primeira vez também fiquei assim… diferente para mim. Mas depois consegui compreender melhor essas…

J L – Todas essas experiências, culturas diferentes, nesse caso é um comportamento bem diferente relativamente à morte, faz parte também do nosso crescimento, não é João Pedro?
J P – Sim. Para mim, eeh… passei a ver a morte de maneira muito diferente. E aliás a minha segunda ida para Inglaterra, para além de motivos profissionais, também teve a ver com motivos pessoais, que envolveram também esse aspecto. E passei a ver a vida de outra maneira totalmente diferente. Hoje acho que sou uma pessoa mais calma, mais serena, que dá mais tempo ao tempo. E que…

J L – Que vai vivendo o dia-a-dia.
J P – Exactamente, é isso. Acho que todos nós passamos por uma fase, por essa fase mais tarde ou mais cedo, nas nossas vidas. Mas quanto “mais cedo” passarmos, não muito cedo, acho que é um motivo…preferencialmente era bom que não passássemos, evidentemente. Mas crescemos muito, aprendemos muito, a vida passa a ser vista com outros olhos totalmente diferentes.

 

J L – João Pedro, foi um prazer enorme recebê-lo no Jardim da Música.
J P – Para mim foi um prazer conhecê-la pessoalmente. Já conhecia a sua voz, que já tenho acompanhado os seus programas. Sou grande admirador seu.

J L – E eu de si, porque toca lindamente violino. É uma pena não se divulgarem mais estes jovens portugueses, e que lhes possam ser dadas oportunidades de revelar o seu talento e o seu amor à música. O João Pedro é um homem feliz!
J P – Sim, sou um homem feliz, e para mim, sempre que toco, entrego-me sempre ao máximo, e por isso também acho que faz sentido gravar um dia ao vivo, porque nessa altura damos muito de nós. Digamos que sou um veículo nas mãos de um ser superior, e que me pôs alguns talentos em mim, e de mim passa para os outros. Portanto, basicamente o tocar é uma forma de nos oferecermos, de darmos aquilo que não é nosso.

J L – E de darmos felicidade e amor.
J P – Exacto.

J L – A música talvez seja o maior elo de solidariedade entre os povos.
J P – Acredite.

J L – João Pedro Cunha, foi um prazer recebê-lo aqui no Jardim da Música.
J P – Igualmente. Muito obrigada Judite. Felicidades.

J L – Obrigada, até breve.
J P – Obrigada

(continuação do momento musical de Kreutzer, que estava como fundo musical de entrevista)

 J L – E assim termina mais um Jardim da música, na companhia de João Pedro Cunha e da nossa assistente técnica, a nossa querida Ana Colaço, que vai ausentar-se durante uns tempos, porque tem direito a férias também. Tenha um óptimo domingo e obrigada por ter estado aí.

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